
Dirt Showdown
Dia desses, uma passeata parou a Avenida Paulista, em São Paulo, protestando contra a casualização dos jogos de corrida. O que era alegria terminou quando os (dois) manifestantes foram atropelados sem querer por um furgão azul-bebê decorado com corações rosinhas, pára-choques laranjas e escapamentos cuspindo fogo. As câmeras de segurança não registraram, mas na placa estava escrito Dirt Showdown.
Ele, que “emburreceu” os jogos de rali, que “diluiu” a série Dirt, que cometeu o pecado de se tornar “menos realista” ao trocar as corridas de 15 km na Finlândia por pistinhas modernas, de “zoeira”, daquela diversão X-Games californiana. Ou, se você quiser curtir mais e julgar menos, ele é o jogo que resgatou Destruction Derby, que passou na frente do agora zumbi Flatout, e que continua exigente como sempre foi. Dirt Showdown despertou de novo aquela boa euforia de um velho MegaRace 2, de um não tão velho mas muito mais explosivo Burnout. Ele deu uma saudável renovada no cenário de jogos de corrida, e não precisou emburrecer nada – nem ninguém – para isso.

Por trás da pegada desencanada, dos menus brutos e trilha sonora hardcore/adolescente/energético-na-veia, temos a maestria da Codemasters (Grid, TOCA Race Driver, F1…), estúdio que já ensinou muito mais do que qualquer auto-escola da vida. As lições aqui vão da caótica baderna nas provas de cross até o sangue frio e precisão científica das manobras estilo gymkhana.
É um dilema desesperador viver entre um e outro. Entre a porradaria de uma pista em “8”, com carangos detonando uns aos outros na amizade, e a habilidade de fazer zerinhos e drifts precisos nos canteiros de obra com o relógio na regressiva. Mas é daí que vem a graça de Showdown. Ele é um hobby profissional. Ele desperta (e provoca) o melhor piloto que existe em você, seja com o Fiestinha todo patrocinado do Gymkhana 5, seja com aquele projeto de Fiat 147 detonado do começo ao fim, com pintura improvisada e uma frase engraçadinha na lateral.

É no lado cross/zueira, aliás, que temos os carros mais brilhantes dos últimos tempos (galeria abaixo) e as situações dignas de replay que você vai mandar pro YouTube. A gaiolinha frágil que toma um toque e sai rodando igual brinquedo de criança na curva; o muscle car remendado que acaba destruindo tudo na arena; o furgão peso-pesado que vai bem melhor nas curvas do que você esperava. E todos com suas próprias “liveries”, pinturas personalizadas cheias de graça. É um alívio, uma tacada de criatividade na cabeça de quem já estava cansando da estética clean e industrializada de Gran Turismo, Forza e Need.
Os carros de Showdown foram soldados no improviso, pintados à mão, estão manchados de graça, com o motor ao ar livre. É como uma versão de Carros mais adulta (ou seja: sem risadinha na grade do radiador). Você vai entender quando chegar em primeiro com um carro que perdeu 50% da parte da frente ao longo da corrida.
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